Com a expansão das redes sociais e o uso constante de dispositivos digitais, o desafio de manter a atenção nunca foi tão grande. Crianças e adolescentes convivem com uma avalanche de estímulos rápidos, com vídeos curtos, notificações e conteúdos fragmentados que moldam a forma como pensam e aprendem. O fenômeno conhecido como brain rot, termo popularizado nas redes e recentemente adicionado ao Dicionário Oxford, descreve a fadiga cognitiva causada pelo excesso digital e já preocupa educadores no ambiente escolar.
A mais recente edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024) mostra que 53% dos brasileiros não leram nenhum livro nos três meses anteriores à pesquisa, seja impresso ou digital. Entre os jovens, a justificativa mais comum é a falta de tempo, reflexo de uma rotina marcada pela velocidade e pelo consumo de informações instantâneas.
Para Rosana Ferreira, coordenadora pedagógica do Colégio Arbos, o afastamento dos livros traz consequências que vão além do desempenho escolar. “Quando a leitura perde espaço, perde-se também a chance de ampliar o vocabulário, exercitar a imaginação, compreender o outro e fortalecer a memória e a atenção. Ler é como treinar o cérebro todos os dias. Cada página é um exercício que ajuda crianças e adolescentes a pensarem melhor e se comunicarem com clareza”, explica.
Ela reforça que incentivar a leitura exige cuidado e sensibilidade. “O erro mais comum é transformar o livro em castigo. Quando a leitura vira punição, a mágica se perde. Outro equívoco é restringir o que deve ser lido apenas aos clássicos. Gibis, mangás e textos digitais também são portas de entrada. O importante é que o aluno sinta prazer em ler, independentemente do formato”, observa.
Entre os jovens que transformaram esse hábito em propósito está Malu Lira, conhecida como Malu Finanças, escritora amazonense de 15 anos que é referência em educação financeira infanto-juvenil. Autora de mais de 20 livros sobre finanças e comportamento, Malu leva o projeto “Malu Finanças na Escola” a instituições públicas e privadas de todo o país, onde promove debates sobre disciplina, leitura e autoconhecimento como caminhos para o protagonismo juvenil.
Para Malu, o livro é mais do que uma fonte de conhecimento, é uma ferramenta de reflexão. “Cada leitura me ensinou algo sobre mim mesma e me ajudou a entender o valor das escolhas e da disciplina. Ler é o que me mantém curiosa e conectada ao mundo real”, afirma. Ela acredita que o contato com os livros é o que permite aos jovens desacelerar e construir pensamento crítico. “Enquanto o mundo digital oferece respostas instantâneas, o livro ensina a lidar com dúvidas. Ele faz a gente pensar com calma, imaginar possibilidades e questionar certezas. Quando o adolescente encontra um tema que o toca, o livro vira um espelho e não uma obrigação.”
Rosana reforça que, em tempos de dispersão e excesso de estímulos, o ato de ler é também um exercício de atenção e empatia. “A leitura potencializa a capacidade de análise, de inferência e de construção de sentido. Sem esse exercício, comprometemos a habilidade de interpretar informações e de formar opiniões bem fundamentadas. Ler exige planejamento, autorregulação e memória de trabalho, habilidades que se refletem diretamente na concentração e na organização cognitiva”, afirma.
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Fonte: Máxima Assessoria
