O enfrentamento à violência de gênero em solo paulista entrou em uma nova fase estratégica. Com o endurecimento das operações policiais e a integração de ferramentas tecnológicas, o Governo de São Paulo busca não apenas punir, mas antecipar-se ao ciclo de violência que vitima centenas de mulheres anualmente. Os dados mais recentes revelam um cenário de contrastes: enquanto a Grande São Paulo apresenta sinais de recuo nos índices mais graves, o interior do estado ainda enfrenta desafios estruturais e culturais.
Em janeiro de 2026, a capital paulista e os municípios da região metropolitana, incluindo as sete cidades do Grande ABC, registraram seis feminicídios. O número aponta uma redução importante em comparação ao mesmo período do ano anterior, quando dez mulheres perderam a vida em crimes de ódio baseados no gênero.
O desafio do interior e a luta contra a subnotificação
Apesar do recuo nas áreas urbanas mais densas, o interior paulista acendeu um sinal amarelo para as autoridades. No primeiro mês do ano, foram contabilizadas 20 mortes nessas regiões, resultando em 12 prisões em flagrante. No total estadual, o balanço fechou em 26 feminicídios, com 15 autores detidos imediatamente após o crime.
A delegada coordenadora das Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs), Cristiane Braga, aponta que a dinâmica em cidades menores exige um olhar diferenciado. Segundo ela, a região apresenta desafios relacionados a fatores como subnotificação, aspectos culturais e dinâmicas sociais próprias de municípios pequenos.
“Buscamos a ampliação de salas DDM para o atendimento reservado, humanizado e qualificado das vítimas em todo o interior paulista de maneira a enfrentarmos a subnotificação e assim combater a violência em seu nascedouro, coibindo a progressão que pode levar ao feminicídio”, afirmou a delegada.
Para a especialista, a solução passa pela união de forças: “Buscamos a articulação interinstitucional para o atendimento multidisciplinar”, continuou Cristiane.
Tecnologia como escudo: Tornozeleiras e Botão do Pânico
Um dos pilares da nova estratégia de segurança é o uso da tecnologia para garantir que as medidas protetivas não sejam apenas “papel”. São Paulo consolidou-se como pioneiro no uso de tornozeleiras eletrônicas para monitorar agressores de mulheres. Desde a criação do programa em setembro de 2023, 712 agressores já foram monitorados, sendo que 189 permanecem sob vigilância ativa.
A eficácia do sistema é comprovada pelos números de repressão: o monitoramento permitiu que 211 autores fossem conduzidos à delegacia, com 120 deles permanecendo presos por descumprirem as restrições impostas pela Justiça.
Além da vigilância do agressor, o estado investe no empoderamento da vítima através do aplicativo SP Mulher Segura. A ferramenta já conta com 45,7 mil usuárias cadastradas e oferece:
- Botão do Pânico: Acionamento imediato de viaturas via georreferenciamento.
- Monitoramento reverso: Alerta automático à polícia caso um agressor monitorado se aproxime da vítima.
- Registro de Ocorrência: Facilidade para formalizar denúncias sem sair de casa.
Uma rede que não dorme: DDMs e Salas Lilás
A estrutura de atendimento físico também foi ampliada para garantir que a ajuda chegue a qualquer hora. Atualmente, o estado mantém 142 Delegacias de Defesa da Mulher, das quais 18 operam 24 horas por dia. Para cidades que ainda não possuem uma unidade especializada, foram criadas 173 Salas DDM em delegacias comuns, garantindo que a mulher seja atendida por videoconferência com especialistas.
Outro ponto fundamental é o acolhimento na ponta do sistema. A Cabine Lilás, no COPOM (190), direciona chamadas de emergência para policiais femininas capacitadas. Já no momento da perícia, a Sala Lilás do IML oferece um ambiente privado e digno para exames de corpo de delito, evitando a revitimização.
SP Por Todas: Autonomia além da segurança
O governo estadual também promove o movimento “SP Por Todas”, que entende que a segurança física deve caminhar junto com a independência financeira. O programa articula políticas públicas que vão do auxílio jurídico ao fomento da autonomia profissional, buscando oferecer uma saída definitiva para as mulheres que se encontram em situações de vulnerabilidade econômica dentro de relacionamentos abusivos.
_______
*Com informações: Agência SP
