Celebrado no próximo dia 30 de janeiro, o Dia do Quadrinho Nacional marca o nascimento das histórias em quadrinhos no Brasil e homenageia a publicação de “As Aventuras de Nhô-Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte”, de Angelo Agostini, considerada a primeira HQ brasileira, lançada em 1869. A data reforça a relevância cultural e artística dos quadrinhos nacionais, que ao longo das décadas passaram a retratar diferentes identidades, contextos sociais e temas universais, consolidando o Brasil como um importante polo criativo no cenário mundial das HQs.
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Apesar de ainda serem vistos, por parte do público, como um gênero “menos importante” da literatura, os quadrinhos desempenham um papel fundamental na formação de leitores. “Toda forma de leitura é válida e necessária. Os quadrinhos combinam texto e imagem de maneira inteligente, despertando o interesse de crianças e jovens e facilitando o contato inicial com o universo literário”, afirma Aline Souza Silva Santos, bibliotecária do Brazilian International School – BIS (São Paulo/SP). “Esse formato contribui para a criação do hábito da leitura ao tornar a experiência mais acessível, envolvente e prazerosa desde a infância.”
No contexto educacional, as HQs também se destacam como ferramentas pedagógicas eficazes. Além de estimularem a interpretação de texto, ampliam o repertório cultural, favorecem o pensamento crítico e auxiliam no desenvolvimento da alfabetização e da criatividade. “Os quadrinhos ajudam o estudante a compreender narrativas complexas, trabalhar emoções e refletir sobre temas históricos, sociais e éticos. Quando bem utilizados, tornam o aprendizado mais significativo e próximo da realidade dos alunos”, destaca Aline.
“Valorizar os quadrinhos nacionais é reconhecer a potência da nossa produção cultural e ampliar as possibilidades de acesso à leitura. Eles não substituem outros gêneros, mas dialogam com todos e cumprem um papel essencial na formação de leitores mais críticos e criativos”, conclui a bibliotecária do BIS.
Para celebrar o Dia do Quadrinho Nacional e incentivar a leitura, Aline Souza Silva Santos indica 12 quadrinhos brasileiros, de títulos infantis a adultos, que ajudam a compreender a diversidade e a força desse gênero no País.
1. Angola Janga, de Marcelo D’Salete
A obra, vencedora do Prêmio Jabuti 2018, conta a história do maior quilombo brasileiro, marco de resistência na luta contra a escravidão. Angola Janga, “pequena Angola” ou, como dizem os livros de história, Palmares. Por mais de cem anos, foi como um reino africano dentro da América do Sul. E, apesar do nome, não tão pequeno: Macaco, a capital de Angola Janga, tinha uma população equivalente à das maiores cidades brasileiras da época. Formada no fim do século XVI, em Pernambuco, a partir dos mocambos criados por fugitivos da escravidão, Angola Janga cresceu, organizou-se e resistiu aos ataques dos militares holandeses e das forças coloniais portuguesas. Tornou-se o grande alvo do ódio dos colonizadores e um símbolo de liberdade para os escravizados. Seu maior líder, Zumbi, virou lenda e inspirou a criação do Dia da Consciência Negra. Editora Veneta. Classificação indicativa: 16 anos.
2. Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho
Um astro decadente do cinema chinês, um playboy mimado e um escritor deprimido são alguns personagens deste romance gráfico. Traz ao leitor um mosaico de tramas realistas e fantásticas, dramáticas e cômicas. As tramas são amarradas por temas e subtextos recorrentes, tais como o confronto dos personagens com acontecimentos drásticos ou misteriosos que transformam suas vidas, a conciliação da vida com a arte e a tentativa de preservar o afeto e o amor em relacionamentos ameaçados por circunstâncias adversas. Editora Companhia das Letras. Classificação indicativa: 16 anos.
3. Castanha do Pará, de Gildati Jr
O romance gráfico vencedor do primeiro Prêmio Jabuti reconta, em forma de fábula, uma realidade cada vez mais comum nos dias de hoje, o das crianças de rua. Castanha é um menino-urubu que vive suas aventuras pelos cenários do tradicional mercado público Ver-o-Peso, em Belém do Pará. Mora sob o céu aberto e sobrevive dos pequenos furtos e das migalhas de bondade que sobram do mundo ao seu redor. O autor abusa da expressividade nas aquarelas para dar vida a este triste conto urbano, criando uma visão lúdica e ritmada para a poesia da dura realidade. Editora Brasa. Classificação indicativa: 12 anos.
4. Dois Irmãos, de Fábio Moon e Gabriel Bá
Adaptação para graphic novel do romance de Milton Hatoum, um dos livros mais importantes da literatura brasileira contemporânea, pelos irmãos quadrinistas mais premiados da última década. Ao mesmo tempo que preserva a força narrativa de Hatoum, esta adaptação evidencia o talento de Bá e Moon na construção de histórias que alternam entre a tragédia, a delicadeza, a brutalidade e o humor. No traço deles, a vida dos gêmeos Yaqub e Omar ganha novos contornos épicos. A Manaus dos quadrinhos, feita de um jogo de luz e sombras, acolhe este drama que cruza gerações e, seja nos grandes planos ou nos mínimos detalhes, carrega o enredo original de energia e vitalidade. Editora Companhia das Letras. Classificação indicativa: 18 anos.
5. Esta é a verdadeira história do paraíso, de Millôr Fernandes
Ateu desde menino, o escritor e ilustrador satirizava em seus textos as passagens bíblicas e os dogmas religiosos, posição que arrebatou milhares de fãs, mas também incomodou, como atesta a história em torno da primeira publicação desta versão do Gênesis, recontada com descrença e humor. O livro é considerado uma das obras mais importantes do autor, com questionamentos que só poderiam ter saído da mente do humorista. Adorada pelos fãs e esgotado há muitos anos, esta obra clássica tem novo projeto gráfico, com a participação de 18 artistas contemporâneos, alguns dos principais quadrinistas da atualidade que deram a sua versão sobre a origem do mundo. Editora Companhia das Letras. Classificação indicativa: 14 anos.
6. Estórias Gerais, de Wellington Srbek e Flavio Colin
É considerado um dos melhores quadrinhos brasileiros já criados. A história se passa no sertão mineiro da década de 1920, em meio a coronéis e jagunços, disputas entre bandos rivais e pequenas narrativas fabulosas que se amarram em uma trama maior. Produzido em 1998, foi publicado originalmente de forma independente em 2001, tendo recebido no ano seguinte o Troféu HQMIX de Melhor Graphic Novel e Melhor Roteirista Nacional e o Troféu Angelo Agostini de Melhor Roteirista e Melhor Desenhista. Editora Comix. Classificação indicativa: 16 anos.
7. Lavagem, de Shiko
HQ de terror aclamado, conta a história de horror de um casal isolado que vive num mangue: uma mulher analfabeta e temente a Deus, vivendo num mundo de adultério; e um homem que convive mais com os porcos do que com as pessoas. O termo “lavagem” vai além de ser uma mera comida dos porcos ou o cardápio da janta que se prepara naquela noite no casebre. A lavagem da alma pode ser tanto num banho de sangue, nas águas da maré alta, ou no abandono de uma vida atolada no terreno úmido dos manguezais. Editora Mino. Classificação indicativa: 18 anos.
8. Manual do Minotauro, de Laerte
Nestas mais de 1500 tiras publicadas entre 2004 e 2015 e reunidas pela primeira vez em livro, época em que a tira Piratas do Tietê, publicada pelo jornal Folha de São Paulo, virou o Manual do Minotauro; quando a artista decidiu abandonar os elementos clássicos da tira de humor, como o arremate cômico e os personagens recorrentes e passou a apostar em temas filosóficos, metafísicos, com uma veia poética. O público pode conferir a evolução artística e a fase mais inovadora da cartunista, que confirma a carreira de Laerte como das mais interessantes nos quadrinhos do mundo. Editora Companhia das Letras. Classificação indicativa: 16 anos.
9. O Menino Maluquinho, de Ziraldo
Este menino traquinas pensa fora da caixa, faz muita confusão e tem macaquinhos no sótão, apesar de não saber o que significa ter macaquinhos no sótão. Mas entre partir alguns vasos e perder muitos cadernos, ele é também a alegria da casa, compositor de canções, o melhor namorador da escola e um companheirão. Será mesmo maluquinho, este menino? Ou será que Ziraldo concentrou num só menino aquilo que deve ser a infância? Obra mais importante e popular do cartunista e ilustrador, dono de um dos mais conhecidos traços de sua geração. Editora Melhoramentos. Classificação indicativa: 10 anos.
10. Superalmanaque Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa
O Superalmanaque Turma da Mônica traz um mix de personagens e pura diversão através das histórias em quadrinhos do universo de Mauricio de Sousa. Mônica, inspirada na filha do desenhista, apronta muitas confusões junto a seus amigos Cebolinha, Magali, Cascão, Milena, Chico Bento e de outros personagens que fazem parte da cultura popular e da infância de milhões de brasileiros. Classificação indicativa: 8 anos.
11. Todo Bob Cuspe, de Angeli
Uma das criações máximas de Angeli, Bob Cuspe foi a grande resposta do cartunista aos excessos dos anos 1980, à hipocrisia reinante da elite cultural e financeira, à vida espalhafatosa e deslumbrada dos yuppies no Brasil após o fim da ditadura. Bob Cuspe serviu para encapsular a frustração, a raiva, os anseios e a revolta dos desfavorecidos. Seus inimigos estavam por toda parte. Seu brinco era um grampo, suas roupas não passavam de trapos, a porta de sua casa era um bueiro e suas bandas eram os Ramones, os Ratos de Porão, os Sex Pistols e o The Clash. O personagem fez história na revista Chiclete com Banana, grande marco do quadrinho independente brasileiro e um dos símbolos da redemocratização, com tiragens que chegavam a mais de 100 mil exemplares mensais. Editora Companhia das Letras. Classificação indicativa: 16 anos.
12. Tungstênio, de Marcello Quintanilha
O romance gráfico tem no enredo suspense e crítica social, e gira em torno de um dia na vida de um policial, sua esposa, um traficante e um ex-sargento na cidade de Salvador, que terão suas vidas envolvidas a partir de um crime ambiental. Seu criador é um dos mais importantes quadrinistas surgidos no Brasil nos últimos vinte anos, tendo trabalhos publicados na Europa. A obra venceu o Prêmio Angoulême (França) dois prêmios Rudolf Dirks (Alemanha) e um prêmio HQ Mix (Brasil), e foi adaptada para o cinema em 2018. Editora Veneta. Classificação indicativa: 12 anos.
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