O mercado financeiro brasileiro iniciou a semana com forte instabilidade. Nesta segunda-feira (24), o dólar comercial encerrou o dia em alta de 0,61%, vendido a R$ 5,752, enquanto o índice Ibovespa recuou 0,77%, fechando aos 131.321 pontos. As oscilações foram impulsionadas por falas do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e por novas ameaças protecionistas do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que voltou ao centro do noticiário econômico com declarações sobre tarifas.
Pela manhã, a cotação da moeda norte-americana chegou a R$ 5,77, em reação a comentários de Haddad sobre uma possível revisão dos parâmetros do arcabouço fiscal. A declaração gerou ruído entre investidores e contribuiu para o aumento da volatilidade no mercado de câmbio. A tensão só arrefeceu momentaneamente após o ministro usar a rede social X (antigo Twitter) para esclarecer suas declarações, o que levou o dólar a recuar para a casa dos R$ 5,73.
No entanto, no fim da tarde, o câmbio voltou a subir com força, refletindo o cenário internacional. Donald Trump, pré-candidato à presidência dos Estados Unidos, afirmou que pretende aplicar uma tarifa de 25% a países que importem petróleo da Venezuela. Além disso, confirmou que, a partir de 2 de abril, entrará em vigor uma nova rodada de tarifas sobre produtos como alumínio, automóveis e itens farmacêuticos.
Investidores reagem a incertezas fiscais e cenário externo
As falas de Haddad, ainda que posteriormente explicadas, reativaram o debate sobre a estabilidade do novo arcabouço fiscal brasileiro, aprovado em 2023 para substituir o teto de gastos. Investidores temem que alterações nos parâmetros do regime resultem em maior permissividade fiscal e pressão inflacionária, o que poderia demandar novos aumentos da taxa Selic.
“A sinalização de uma possível mudança nas regras fiscais, sem detalhamento, causa apreensão. O mercado interpreta isso como risco de afrouxamento da disciplina nas contas públicas”, explicou um analista ouvido pelo portal.
A tensão foi agravada pelo aumento nas taxas dos títulos do Tesouro norte-americano, considerados os investimentos mais seguros do mundo. Com os yields em alta, investidores tendem a retirar recursos de países emergentes, como o Brasil, em busca de maior segurança nos Estados Unidos.
Bolsa descola do exterior e realiza lucros
O desempenho do Ibovespa destoou do comportamento das bolsas norte-americanas, que encerraram o dia em alta após um início negativo. No Brasil, o índice foi pressionado por uma combinação de fatores locais e externos, além da chamada “realização de lucros”, quando investidores vendem ações após um período de valorização para garantir os ganhos.
A queda desta segunda interrompe uma sequência de três semanas positivas para o principal indicador da B3. A baixa liquidez também contribuiu para aumentar a sensibilidade do mercado diante das notícias, segundo operadores.
Setores mais sensíveis ao dólar, como o de consumo e aviação, foram os mais impactados, enquanto ações de exportadoras tiveram desempenho misto, diante da valorização da moeda norte-americana.
Trump volta ao radar e amplia clima de tensão global
As declarações de Trump reacenderam temores de uma nova onda de protecionismo caso o republicano volte ao poder. A proposta de sobretaxar países que comercializem petróleo com a Venezuela foi vista por analistas como um sinal de endurecimento da política externa e comercial dos EUA. “É um movimento que pode aumentar ainda mais a tensão geopolítica e o isolamento da Venezuela no mercado internacional de energia”, afirmou um especialista em relações internacionais.
Além disso, a confirmação das tarifas sobre alumínio, automóveis e produtos farmacêuticos levanta preocupações sobre uma possível escalada nos conflitos comerciais com países parceiros, incluindo membros da União Europeia e do Mercosul.
Perspectivas seguem instáveis para os próximos dias
Analistas avaliam que o ambiente deve seguir volátil nos próximos dias, especialmente com a aproximação da data de vigência das tarifas anunciadas por Trump e possíveis novos pronunciamentos do governo brasileiro sobre a política fiscal.
A agenda econômica da semana inclui a divulgação de dados de inflação nos Estados Unidos e no Brasil, além de falas de dirigentes do Banco Central norte-americano, que podem influenciar o comportamento dos juros e o apetite por risco global.
Enquanto isso, o mercado deve continuar sensível a declarações de autoridades e a fatores externos, como as eleições nos EUA, a política monetária internacional e a dinâmica dos preços de commodities.
________
*Com informações: Agência Brasil
Foto: Marcello Casal