O que acontece no pulmão de um paciente em estado crítico não fica apenas no pulmão. Um estudo recente conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e do Hospital das Clínicas revelou um “efeito dominó” perigoso: quase metade (49,9%) das pessoas internadas com Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA) acaba desenvolvendo Injúria Renal Aguda (IRA).
Essa conexão entre os dois órgãos, embora pareça distante, é fatal. A pesquisa mostra que os rins perdem subitamente a capacidade de filtrar o sangue, o que eleva drasticamente o risco de morte na UTI. O estudo foi publicado no prestigiado Journal of Critical Care e acende um alerta para a necessidade de monitoramento duplo imediato.
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O perigoso “Crosstalk”: A conversa entre pulmão e rim
Cientificamente, o fenômeno é chamado de crosstalk (conversa cruzada). Não se trata de falhas isoladas, mas de um ciclo onde a inflamação pulmonar intensa e o uso de ventilação mecânica “avisam” ao rim que é hora de parar.
De acordo com o levantamento, estar sob ventilação mecânica pode aumentar em até 11 vezes a chance de o paciente sofrer uma lesão renal. “O pulmão e o rim não falham de maneira isolada”, explicam os pesquisadores. Esse mecanismo cria um ciclo clínico de altíssimo risco que exige atenção redobrada das equipes médicas.
Rapidez impressionante: O dano surge em dois dias
Um dos dados que mais impressionou os especialistas da USP foi a velocidade da complicação. A análise de quase 3 mil estudos internacionais mostrou que:
- Tempo médio: A lesão renal costuma aparecer apenas dois dias após o diagnóstico respiratório.
- Risco de óbito: Em diversos cenários analisados, a falência renal foi o fator principal para o falecimento do paciente.
- Impacto da Covid-19: Nos casos causados pelo coronavírus, a taxa de falência renal foi ainda maior, atingindo 52,6% dos internados.
O que o futuro reserva para os sobreviventes?
Apesar de a ciência ter mapeado o que acontece dentro da UTI, o cenário pós-alta ainda é um mistério. O estudo, coordenado pelos professores Carlos Carvalho e Emmanuel A. Burdmann, aponta que ainda sabemos pouco sobre as sequelas de longo prazo.
“O crosstalk pulmão-rim ainda é pouco compreendido”, afirma Francisco Z. Mattedi, primeiro autor do artigo. A grande dúvida dos médicos agora é saber se esses pacientes que sobreviveram à UTI terão uma progressão para doença renal crônica ou se precisarão de hemodiálise pelo resto da vida.
A pesquisa contou com apoio da Fapesp, do Instituto Todos pela Saúde e de doações via crowdfunding (#HCCOMVIDA), reforçando a importância do investimento em ciência para entender as complicações sistêmicas que vão muito além de uma “falta de ar” severa.

