A televisão brasileira perdeu, na manhã deste sábado (28), um de seus arquitetos mais brilhantes. O ator, diretor e dublador Dennis Carvalho morreu aos 78 anos, no Rio de Janeiro. Ele estava internado no Hospital Copa Star, em Copacabana, onde tratava problemas de saúde desde o final de 2022. Em nota oficial, a unidade de saúde confirmou o falecimento, mas ressaltou que, a pedido da família, detalhes sobre a causa da morte não serão divulgados.
Paulistano de nascimento (27 de setembro de 1947), Dennis não apenas assistiu à evolução da TV no Brasil — ele a construiu. Sua estreia aconteceu aos 11 anos, na novela Oliver Twist, em uma era em que a televisão ainda era feita ao vivo e o erro não tinha o amparo da edição.
Da voz do Capitão Kirk ao comando dos estúdios
Antes de se tornar o “general” dos sets de gravação, Dennis Carvalho foi uma voz onipresente na infância de muitos brasileiros. Como dublador, emprestou seu talento a personagens icônicos como o Capitão Kirk, de Jornada nas Estrelas, e o cabo Rusty, do seriado Rin-Tin-Tin.
Sua transição para a direção foi orgânica e curiosa. Enquanto atuava em Locomotivas (1977), recebeu a primeira oportunidade de dirigir cenas na reta final da trama. Mas foi nos bastidores de Malu Mulher (1979) que ele “fez sua faculdade”, observando o trabalho de Daniel Filho e estudando enquadramentos e cortes nos intervalos das gravações.
O auge com Gilberto Braga e sucessos imortais
A parceria entre Dennis Carvalho e o autor Gilberto Braga rendeu alguns dos capítulos mais importantes da história social do Brasil. Juntos, eles pararam o país para perguntar “Quem matou Odete Roitman?” em Vale Tudo (1988) e emocionaram a nação com o retrato político de Anos Rebeldes (1992).
Relembre algumas obras dirigidas por ele:
- Novelas: Selva de Pedra, Fera Ferida, Explode Coração, Paraíso Tropical, Babilônia e Segundo Sol.
- Séries: Malu Mulher, Carga Pesada e Dalva e Herivelto: uma Canção de Amor.
- Como ator: Brega & Chique, Mico Preto e História de Amor.
“Silêncio!”: O estilo Dennis de fazer TV
Nos estúdios, Dennis era conhecido pelo rigor técnico mesclado a um humor ácido. Seus bordões tornaram-se lendários entre as equipes técnicas e o elenco, como o grito de “Silêncio!” que impunha ordem imediata no set, ou o carinhoso — porém firme — “Fora, Vídeo Show!”, quando as câmeras de bastidores tentavam invadir seus ensaios.
Além dos sucessos de audiência, ele foi um grande formador de talentos. Muitos dos diretores que hoje comandam o horário nobre da TV Globo aprenderam com Dennis a arte de combinar disciplina, sensibilidade narrativa e inovação visual.
Um capítulo que se encerra
Em dezembro de 2022, o diretor enfrentou um quadro grave de septicemia e chegou a apresentar melhoras, mas sua saúde seguiu delicada nos anos seguintes. A morte de Dennis Carvalho encerra um ciclo de ouro da teledramaturgia. Ele deixa um legado de produções que não apenas entretiveram, mas que ajudaram o brasileiro a se enxergar na tela, discutindo ética, corrupção e amor com uma linguagem que só ele sabia criar.
O velório e o sepultamento deverão ocorrer no Rio de Janeiro, em cerimônias reservadas a amigos e familiares.
