Paulo Serra*
Há 25 anos, em 6 de março de 2001, o Brasil se despedia de uma das figuras mais marcantes da história política contemporânea: Mário Covas Júnior. Em momento de polarização, de superficialidade no debate público e de escassez de lideranças capazes de combinar ousadia com responsabilidade, lembrar de Covas e de todo seu legado é mais do que um exercício de memória – é reflexão necessária sobre o que significa fazer Política com propósito, com coragem e com compromisso com o povo.
Um dos fundadores do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), deputado federal, prefeito de São Paulo, senador da República e governador paulista, Mário Covas não foi apenas um grande líder político e partidário. Foi, sobretudo, um reformador. Ao assumir o Governo de São Paulo, em 1995, encontrou um Estado endividado, com baixa capacidade de investimento e uma estrutura administrativa pesada e pouco eficiente. O desafio era indiscutivelmente grande.
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Foi naquele instante que o tucano deu início a uma verdadeira revolução em Gestão Pública – uma transformação silenciosa, porém, profunda, que reposicionou São Paulo como referência nacional em eficiência administrativa e em qualidade de políticas públicas.
Uma das primeiras medidas estruturantes tomadas por Covas foi o duro processo de reorganização fiscal e de equalização das dívidas estaduais. Engenheiro civil por profissão, o tucano enfrentou o problema de frente, promovendo ajustes que permitiram ao Estado recuperar sua capacidade financeira e planejar investimentos de longo prazo. Não era uma decisão popular imediatista, mas algo absolutamente necessário para garantir sustentabilidade às contas públicas.
Ao mesmo tempo, Covas implantou aquilo que chamamos de “choque de gestão”. Para tanto, o Estado passou a reduzir desperdícios, a aumentar a eficiência do gasto público e a profissionalizar a administração bandeirante.
Outra marca importante foi o avanço nas concessões e nas parcerias da esfera estadual com a iniciativa privada, especialmente na Infraestrutura – modelo iniciado naquele período e que se consolidou ao longo das últimas décadas, sendo, não de hoje, modelo no País.
Covas também deixou compromissos estruturantes para o futuro. Reorganizou áreas estratégicas da administração pública paulista e consolidou uma cultura de planejamento que permitiu que São Paulo continuasse avançando nos anos seguintes.
O maior legado, porém, talvez tenha sido sua postura: o tucano demonstrava que era possível fazer Política com firmeza e com princípios e sem abrir mão do diálogo. Covas defendia reformas profundas, sim, era líder, técnico, prático e objetivo, e sabia em que lado estava, mas jamais caiu na armadilha da radicalização. Ele governava pensando no que vinha ainda pela frente. Em suma, foi um político de vanguarda, mesmo diante das pressões do presente.
Mais do que lembrar de um grande governador, celebrar a memória deste tucano é reafirmar um ideal que o Brasil precisa reencontrar: uma Política de conteúdo e, sobretudo, de equilíbrio. Porque, em tempos de ruído e de polarização, Mário Covas continua sendo clara referência de que boas ideias, gestão eficiente e compromisso com o interesse público transformam realidades e deixam espólios que atravessam gerações.
*Paulo Serra é especialista em Gestão Governamental e em Políticas Públicas, pela Escola Paulista de Direito; e em Financiamento de Infraestrutura, Regulação e Gestão de Parcerias Público-Privadas (PPPs), pela Universidade de Harvard (Estados Unidos); cursou Economia, na Universidade de São Paulo (USP); é graduado em Direito, pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo-SP; professor universitário no curso de Direito, também é 1º vice-presidente da Executiva Nacional do PSDB e presidente do Diretório Estadual do PSDB de São Paulo; foi prefeito de Santo André-SP, de 2017 a 2024.

